segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Em algum lugar nas épocas, me perco de tanto tentar escrever em não-prol de todo o refluxo interminável que causa em mim, ainda hoje, os sentimentos mais assombrosos que uma visão pode proporcionar: qual é o peso de um instante? Qual é o preço de um momento? Quantas são as possibilidades (não em números, mas em situações) de que eu seja aquilo que sempre fui mas que só descobrirei no segundo exato de minha morte? Acima de qualquer hipótese estão os acontecimentos que, junto com os fatos e somados às zilhares de sensações e pensamentos que nos acompanham até a derradeira hora, compõem a impressionante experiência da qual todos participamos em conjunto: a Existência, singularmente echarcada da mais pura Realidade; um Todo concreto e material que se encaixa por completo nas dobras e sobras do Tempo.
Assim como na realidade não necessariamente deve existir um ponto mínimo, aquele que contém a menor distância possível entre o que existe e o que não existe, não necessariamente deve haver também um intervalo mínimo de tempo que possa se encaixar na definição de "instante" ou "momento" de forma universal. O instante e o momento são definidos pela maneira como cada ser interpreta o passar do tempo. Até mesmo dentro dos limites humanos, cada indivíduo tem uma noção de instante - noção essa que, inclusive, varia de situação para situação. Se pudéssemos, contudo, congelar a vida num átimo apressado e passageiro de um segundo espetacular, jamais saberíamos o valor que existe por trás de cada uma das fagulhas de vida que terminam sem maiores lembranças.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Assistido pela pretenção,o existir não tem qualquer preocupação
em ser fiel.
Basta-lhe a culpa por permanecer ativo e
nunca em sua finitude alardeada
se esquecer da falta tensa
que é ficar sem,
mesmo sem nunca saber
o que é a falta derradeira.

Pra que causar aflitas,
dissolutas e mal vistas
discussões,
se com tratos devidos e
muita calma
é que as coisas que valem a pena
são feitas?
e o que mais pudermos fazer
pra que o que vem depois se consuma,
farei trazendo à tona os devaneios insensatos
e as mais belas causas
que a polidez – muito escassa nesses dias –
possa enfim me emprestar.

são tempos tristes.
é difícil conviver com a simples realidade,
pois ela já se foi há tempos atrás
levando uma avalanche que
não é permitida o acesso
a quem teve acesso
ao que hoje é a avalanche que nos move,
perpétua,
até que acabe

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

deslizamos feito água
até não saber mais
se era eu
ou você.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Minhas atitudes fracas são oriundas
de uma velha mania
que escolhe sempre o caminho mais fácil,
que quase sempre leva pra onde arrepender-se é tarde demais.

Nunca fui seguro de mim o suficiente
pra deixar de andar de lado como um caranguejo
e começar a encarar com peito aberto as
situações forjadas especialmente pra esmagar
qualquer expectativa;
eu não deveria ter me acostumado com o fato de
nada acontecer como esperava...

A sagacidade de idéias se torna inútil
perto da palavra que não foi dita,
do gesto que não foi feito,
juntar lá do fundo cada milímetro de
força de vontade pra deixar escapar algo que
não cabia mais ficar por dentro!
Ter que dizer uma coisa por não conseguir uma forma de demonstrá-la,
ter que escrever uma coisa por não conseguir sequer dizê-la.

Há muito já aprendi que é utopia
querer que tudo fique mais fácil,
então nós é que devemos mudar e
criar força pra evoluir
e conseguir assim viver tranquilo...
mas se eu tiver mesmo que ficar
me sentindo completamente sozinho
com muitas pessoas ao meu redor,
o caminho mais fácil vai estar lá:
"eu não te disse que não adiantava sonhar
e que isso ia acontecer de novo?",
me pedindo pra pegar a garrafa
e ir embora.

São coisas mínimas as que eu preciso pra
ter força e contornar o que não é nada pra maioria das pessoas,
mas que pra mim são gigantescos obstáculos à minha alegria.
Coisas mínimas, realmente muito pequenas, que não tive quando precisei,
apesar de não custarem nada; coisas sem as quais
meus dias se repletam de vazio, de tristeza.
Espero que um dia alguém concorde em dedicar um minuto da vida
pra suprir minhas faltas sempre que eu precisar.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

É o momento estático como pedra

Preciso de uma dose pra relaxar.
Depois de tudo que passei -
hoje, ontem, por toda a minha vida -
eu sinceramente penso que
uma dose nesse momento não me seria nada mal.

Mal acostumado, você sabe
Nem preciso repetir.
Depois que o líquido descer, vou ficar
Novo em folha.
E aí vou
beber mais.

Encontrar pessoas.
Conversar ou não com elas.
Encontrar amigos.
Fumar e beber com eles.
Querer existir, gostar de existir.

E no final da noite, como sempre
Voltar e dormir.
Só eu e minha mente.
Talvez esteja acompanhado,
Talvez eu sonhe,
Talvez eu acorde,

Talvez não.
Boa sorte.

raras quase-fodas bem-sucedidas

aproveitei que ela estava no banheiro pra
começar a dichavar.
ouvi enquanto lavava sua
boca, mãos, e qualquer outra parte do corpo que eu tenha
encharcado de porra.

minutos antes - não foi uma foda,
foi só uma gosada -
mas ainda assim meu corpo parece leve
como se tivesse ficado trepando o dia todo.
"você faz uma chupeta do caralho, boneca"
eu penso enquando ela
entra no quarto.

penso em algo pra tentar lhe mostrar o quanto
eu gostei de toda aquela putaria, por isso
digo algo que deixe tudo subentendido:
"se eu fumasse cigarro, agora seria a hora de acender um.
como não fumo, vou bolar esse aqui pra gente."
"é... se eu tivesse cigarro, agora seria a hora
de acender um. mas como não tenho, vou fumar esse com você."

acho que isso significa que
todos estamos bem
até agora.

Não posso mais fugir, então me escondo

Procuro ao meu redor e só vejo palha
pronta pra ser queimada.
Pronta pra acabar.
Não sobra calma, mas também
Não sobram ruídos.
Sobra tempo pra se olhar no espelho,
Procurando uma pista do que está por dentro.
O barulho cessa e a calma
Já não está mais lá.
É como se o silêncio -
Quando não se podem ouvir suas vozes
Me fizessem encontrar a culpa e,
Com ela, a redenção.
Como labaredas infernais faiscando no céu
Devorando vorazmente a palha ao meu redor.